terça-feira, 1 de junho de 2021

Vamos brincar com livros? Desafio Especial Dia da Criança

Estamos de parabéns e queremos fazer a festa convosco!

Foi no Dia da Criança de 2020 que nasceu a página FB Educação Literária na Família. Faz hoje um ano, e, por isso, estamos de parabéns! E como nestas coisas dos livros e da leitura (como, aliás, em tudo na vida) quanto mais damos, mais recebemos (mede-se em sorrisos e em partilhas que nos enchem a alma), hoje estamos aqui para DAR!


A página FB Educação Literária na Família nasceu, neste dia emblemático, com o propósito de TORNAR A LEITURA UM VALOR DE FAMÍLIA.

Acreditamos genuinamente na bondade dos livros e no contributo da leitura para a felicidade de grandes e pequenos.

Primeira publicação na página FB Educação Literária na Família

E, porque "a família é um lugar insubstituível no paulatino processo de educação literária de cada jovem", como referiu o Doutor Cândido Oliveira Martins, precisamente há um ano, neste dia, continuaremos a privilegiar a família enquanto primeiro (e principal) mediador de leitura.



Comentário FB de 1 de junho 2020

Vamos, então, comemorar juntos, com este Desafio Especial Dia da Criança?
Ao longo do mês de junho, mês da criança, lançamos a pequenos e grandes leitores o desafio de transformar livros em jogos!

É simples: a partir de um livro (encontram muitas sugestões nesta página) propomos a construção de um jogo. Pode ser um jogo inspirado em alguns jogos clássicos, como o jogo do galo, da memória, da glória... ou outro tipo de jogo.


Conhecemos bem a criatividade dos nossos pequenos e grandes leitores, e, por isso não temos qualquer dúvida de que nos irão surpreender!
Todos os trabalhos serão divulgados e os três melhores serão premiados!

Vamos brincar? (Com livros, o sucesso é garantido!)

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Outra mão cheia de livros para uma Pedagogia da Felicidade

Apresentamos no passado dia internacional do livro infantil, um conjunto de livros que comprovavam o maior dos benefícios da leitura: ler contribui para a nossa felicidade (imediata)!

Ora, não fomos capazes de conter esta seleção na primeira mão cheia. Os livros que nos fazem felizes são tantos, que não resistimos a partilhar outros tantos.

(podem conhecer a primeira parte desta seleção AQUI)


Esta reflexão surge, como referimos quando apresentamos a primeira mão cheia de livros para uma Pedagoga da Felicidade, porque nos temos vindo a aperceber que os "conhecidos benefícios da leitura" não parecem ser convincentes o suficiente (como atesta o último estudo sobre os hábitos de leitura dos jovens estudantes).

E porque acreditamos que quantos mais adultos experimentarem e conhecerem o mais imediato efeito benéfico da leitura, maior presença os livros marcarão na vida das nossas famílias (pois ainda não encontramos quem não queira ser feliz). 

O segredo é conhecer, pois a estes livros ninguém fica indiferente, e a hora de partilhar uma leitura em família passará, então, a ser muito desejada, quer por grandes, quer por pequenos.

Pormenor do miolo de A maior Casa do Mundo, de Leo Lionni

Abrimos com A maior Casa do Mundo, um trabalho de Leo Lionni (2008), que integra uma história contada de pai para filho, dando-nos a conhecer a importância de compreendermos e aceitarmos as "leis" da mãe natureza. Confrontado com o desejo de o filho querer ter "a maior casa do mundo", o pai caracol conta uma história com o mesmo nome, onde a ambição desmedida e a ostentação acabam por custar a vida ao pequeno caracol. Confrontado com esta "lição", o caracol desta história parece compreender o quanto é afortunado por possuir uma casa tão pequena, e parte, então, para ver o mundo, descobrindo uma infinidade de maravilhas, como podemos ler no excerto da imagem acima.

Indutora de reflexões de ordem diversa, com lugar a diferentes pontos de vista,  esta é mais uma obra que não se esgota numa leitura, e que promete interessantes conversas. 
(Esta obra já deu origem a um interessante jogo da memória, construído por uma das nossas famílias ELF: AQUI).

Pormenor do miolo de Os Figos são para quem passa, de João Abreu e Bernardo Carvalho

Os figos são para quem passa, de João Abreu e Bernardo Carvalho (2016) é um livro percorrido por um conjunto de personagens animais que parece ter por missão ensinar ao Homem como viver em harmonia com a Natureza e com o Outro, respeitando, ainda, os ritmos de aprendizagem de cada um.

Na senda da história do caracolinho de Leo Lionni, o desprendimento afigura-se-nos, nesta obra, como um importante ingrediente para uma vida feliz. 
Estabelecendo uma espécie de analogia com o princípio dos tempos, “No princípio, o mundo era só um. Tudo era de todos, ninguém pertencia a nada, nada pertencia a ninguém” (Abreu e Carvalho), a narrativa vai deixando pistas ao leitor sobre o papel providencial da natureza: (excerto na imagem acima).

“Afinal, era exatamente por isso que os frutos não amadureciam todos ao mesmo tempo. As árvores, sábias e generosas, tinham sempre frutos maduros para quem passava. E quando não os tinham maduros, tinham-nos verdes, para quem passasse nos dias seguintes”. (Abreu e Carvalho)

O desequilíbrio desse “princípio” muda, porém, no dia em que o urso passa debaixo de uma figueira e decide esperar que um figo fique maduro, contrariando, desse modo, a regra do “princípio”. Os sacrifícios (e dissabores) que o urso passa para proteger um único figo (que afinal já era habitado por uma lagarta) provocam o questionamento do leitor, que se divide entre a defesa ou a condenação do urso. A solução é apresentada pela lagarta, o mais pequeno ser que percorre a obra, e que, numa atitude de altruísmo, de respeito para com o processo de crescimento do urso, e talvez também de homenagem à sua paciência, divide com ele o “seu” figo. 
Ao jeito dos contos do “princípio dos tempos”, esta narrativa também encerra com uma “lição”:

 “«Agora já percebi» disse o urso. «Há figos que são para quem passa...» «E há figos que são para quem espera» acrescentou a lagarta. «Pois é», disse o urso. «E esses são os melhores que há»” (Abreu e Carvalho).

Índice e pormenor do miolo de O Senhor Pina, de Álvaro Magalhães e Luiz Darocha

Pela pena de Álvaro Magalhães e Luiz Darocha (2013), numa originalíssima homenagem a Manuel António Pina, trazemos O Senhor Pina. Como podemos ver através do índice (imagem acima), esta obra, recheada de um humor subtil, característico da escrita de Álvaro Magalhães, é um hino à alegria de viver e à imaginação.

E quem nos traz um especial ingrediente para uma Pedagogia da Felicidade é o Ursinho Puff, amigo "inseparável" do Senhor Pina, que aguça o nosso olhar sobre a beleza de alguns momentos especiais (ainda que curtos) como por exemplo "o momento antes":

"Mas então?...
Então estava a saborear o momento antes. É quando ficamos contentes e nos apercebemos disso. Mas agora que me interrompeste, tenho de começar outra vez." (Magalhães e Darocha)
(excerto completo na imagem abaixo).

Excerto do capítulo Um Urso com poucos miolos, in O Senhor Pina, de Álvaro Magalhães e Luiz Darocha

Com fortes ecos de O Principezinho, este episódio irá, sem dúvida, despertar memórias e trazer para o presente muitos "momentos antes", que é como quem diz, muitos momentos felizes!

(Esta obra integrou a primeira edição do programa ELF. E uma das atividades mais apreciadas pelas famílias participantes foi a elaboração de um texto recorrendo apenas aos títulos do índice: fica a sugestão!)

Pormenor do miolo de Depois da Chuva, de Miguel Cerro

Prémio Internacional Compostela 2015, Depois da Chuva, de Miguel Cerro, é um álbum de uma beleza extraordinária! Com ecos de "fábula clássica", esta obra encerra uma poderosa mensagem de resiliência.
Depois de uma grande inundação, os animais são obrigados a refugiar-se numa gruta, no alto de uma colina. Cada um tem a sua tarefa... à exceção da raposa, a quem não é confiado nenhum trabalho. Aparentemente, todas as necessidades estão asseguradas... 

No entanto, a raposinha não desiste de dar o seu contributo para a vida naquela gruta, aonde não chegava a luz...

Pormenor do miolo de Depois da Chuva, de Miguel Cerro

Decidida a iluminar a gruta (e os seus moradores), a Raposinha, depois de derrotada na tentativa de agarrar as estrelas e a lua, descobre um grupo de pirilampos perdidos que mal conseguiam voar... e não hesita em salvá-los  (excerto da imagem acima). E, a partir dessa noite, nunca mais faltou a luz naquela gruta." (Cerro)
Uma obra que dará, certamente, muito que falar! 

E quanto à luz na gruta? Parece-nos ser como a leitura: ninguém tinha sentido falta dela até a experimentar, mas depois... nunca mais puderam viver sem ela.

Pormenores do miolo de O que vamos construir, de Oliver Jeffers

"Temos muito que fazer", diz Oliver Jeffers à sua filha Mari, na dedicatória de O que vamos Construir, Planos para um futuro comum. Este recente trabalho (2020), que o autor refere ter por objetivo "nivelar o terreno" (ao nível das desigualdades) segue a linha do trabalho anterior, que o autor dedicava ao filho, Aqui estamos nós, afigurando-se como uma espécie de manual para a vida. 
À luz de uma aparente simplicidade, nesta obra, Oliver Jeffers não se escusa a apresentar as grandes questões, ou as grandes dualidades da vida, assim como o que é verdadeiramente importante para o ser humano na sua essência, e nos seus direitos mais básicos: uma família, uma casa, e, sobretudo a sua grande necessidade de amar e de ser amado.

Página final de O que vamos construir, de Oliver Jeffers

Um livro ternurento, com vários níveis de leitura, ao qual adultos e crianças desejarão regressar (muitas vezes), como quem regressa a Casa.

A todos desejamos felizes leituras!
                                                          [LMB]

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Primavera de Livros

Entre duas efemérides que nos são tão caras, o Dia da Terra, que comemoramos ontem, e o Dia do Livro, que comemoramos hoje, estas duas mãos cheias de livros são o nosso modo de prestar uma singela homenagem a estas duas Grandes Casas Comuns.


Selecionamos um conjunto de títulos que têm por base a temática das estações do ano.

São obras que nos convidam a (re)descobrir a essência, a abrandar, a aprender que tudo tem o seu ritmo e o seu tempo. Enquanto parte do mesmo cosmos, nós também somos seres de ciclos e de ritmos. Ritmos esses que parecem estar um pouco esquecidos, na verdade… 

Portanto, regressar às origens, através da literatura, poderá constituir um possível (e poderoso) meio de reflexão sobre o nosso lugar nesta Casa que é de Todos. 

Na imagem acima vemos quatro obras que fazem referência explícita, visível no título, às estações do ano. Curioso é o facto de começarem em diferentes estações, reforçando a ideia de ciclo e de uma visão circular do Universo

As Estações é uma edição da kalandraka datada de 2009, uma narrativa exclusivamente visual, sem texto, da autoria de Iela Mari (que foi originalmente publicado com o título A Árvore – pela editora Sá da Costa Infantil em 1973).

Esta narrativa começa no inverno, terminando na mesma estação, apresentando uma visão cíclica do tempo e da natureza. Apercebemo-nos das transformações na paisagem, ao longo das quatro estações, através da vida que acontece na árvore e em torno da árvore – debaixo da terra, à superfície, nos seus ramos…

Uma das duplas páginas dedicadas à estação da primavera na narrativa visual As Estações de Iela Mari

A Primavera é o Tempo a Crescer integra uma deliciosa coleção de quatro volumes, dedicada às quatro estações do ano, editada pela Sá da Costa Infantil, da autoria de Maria Isabel César Anjo e Maria Keil. Constitui um claro convite não só a redescobrir a natureza que se renova, mas também a estender o olhar sobre o Outro, como podemos ver, por exemplo, neste excerto 

“A primavera é o tempo bom dos meninos das barracas que tiveram muito frio no inverno”.

(Falamos de outras obras desta coleção AQUI, onde podem ser vistas as capas dos quatro pequenos volumes).

Capa e pormenor do miolo do livro de Maria Isabel César Anjo e Maria Keil.
 Em cima, à direita, excerto do texto A Floresta de Sophia de Mello Breyner, correspondente ao "passeio de Isabel pela  primavera".

A obra, cujo miolo apresentamos abaixo, é também da kalandraka, e tem como mote a peça musical de Vivaldi, 
As quatro estações. É da autoria de José Antonio Abad Varela e Emílio Urberuaga, e conta com a interpretação musical de Sara chang. Trata-se de um interessante diálogo entre a literatura e a música, do qual já falamos AQUIAQUI e AQUI.
Pelo olhar de um pequeno esquilo vermelho, percorremos, ao som de Vivaldi (pois são apresentadas sugestões dos andamentos que devem acompanhar a narrativa), as quatro estações, com algumas das suas mais emblemáticas características e acontecimentos que habitualmente lhes correspondem, como o acordar do urso na primavera, o calor abrasador e as sestas do verão, as vindimas e a caça no outono e o frio do rigoroso inverno. 
Nesta obra, dicotomias como nascimento e morte, alegria e tristeza… tornam naturais a sua presença ao longo da vida de cada ser, reforçando a questão dos ciclos e ritmos próprios da vida. A narrativa começa na primavera e termina no inverno, com esta sugestiva conclusão:

 “Foi então que começou a soprar o vento, acompanhado de água e neve que confirmava de novo a presença de um longo e frio inverno. Mas todos sabiam que a primavera acabaria sempre por voltar.”

Pormenor do miolo de As Quatro Estações (as duas primeiras duplas páginas - dedicadas à primavera).

Poemas para as quatro estações é uma coletânea de poesia da autoria de Manuela Leitão e Catarina Correia Marques, editada pela Máquina de Voar, em 2017. Trata-se de um livro muito bonito, com poemas para todas as estações e para todos os gostos. Já por cá passou, tendo dado corpo às Andorinhas, mensageiras de esperança, e tendo também integrado as Representações do verão na literatura infantojuvenil.

Aqui convivem animais, árvores, flores, frutos (muitos frutos!), mas também cá chegam outras vozes, como a de Sophia, por exemplo, no poema a menina de Sophia, e até alguns textos em jeito de receita, como “Edital para a hibernação”, “Receita para esperar o inverno”, ou ainda “Como fazer o melhor Castelo de Areia”. Escolhemos para partilhar, nesta primavera de livros, “Cerejas”, um poema da primavera: 

“Quando ela come cerejas, 

daquelas gordas, vermelhas. 

Põe sempre quatro ou cinco, 

como se fosse um brinco, 

a enfeitar as orelhas! 

(Eu sei, eu sei… A minha mãe às vezes parece uma criança!)”

Dois poemas da primavera, da obra Poemas para as quatro estações

Num registo diferente, O Livro dos Quintais, de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho, editado pela Planeta Tangerina em 2010, é uma viagem pelos 12 meses do ano, que tem como pano de fundo oito quintais, onde moram oito famílias diferentes, que o leitor acompanha nos seus mais distintos afazeres, ao ritmo das cores e da transformação da paisagem, ao mesmo tempo que tentamos localizar o "Gatuno" (um dos gatos que integrou a nossa seleção Aqui há gatos (literários) que miam em português).

Pormenor do miolo de O Livro dos Quintais: dupla página correspondente ao mês de março e à chegada da primavera.

Em língua inglesa, este livro pop-up intitulado Seasons é um autêntico hino à beleza de cada estação, recordando-nos que as estações continuam, efetivamente, a ser quatro, e não apenas duas, como por vezes, por descuido do olhar, somos tentados a acreditar...

Do pop-up Seasons, páginas dedicadas à primavera.

Neste segundo grupo de livros, cujas capas podemos ver na imagem abaixo, as estações do ano, a passagem do tempo e a visão de um universo circular são apresentadas a partir do ciclo de vida das sementes. 


Em Uma pequena Semente, um belíssimo livro-acordeão da autoria de Mar Benegas e Neus Caamaño, um trabalho de outubro 2020, da editora Akiara, acompanhamos, de um lado, a vida da semente enquanto semente (no interior da terra) e do outro, a sua vida, a partir do momento em que se tornou 

“um pequeno rebento que um dia, por fim, rasgou a terra e surgiu no mundo” 

até dos seus frutos cair nova semente e o ciclo recomeçar.


Nesta obra de Eric Carle, também de 2020, editada pela Kalandraka, A pequena Semente, o leitor é convidado a acompanhar a viagem de uma semente, desde o outono, momento em que se desprende da árvore, a conhecer as dificuldades por que passa até se tornar numa grande e exuberante planta, admirada por todos no verão, até à chegada, novamente, do outono, onde tudo passa e tudo recomeça. (Falamos desta obra AQUI).

Pormenor do interior do livro A pequena Semente, anunciando a chegada da primavera.

Podemos ver este mesmo ciclo na obra Começa numa semente, de Lara Knowles e Jennie Webber, de 2018, editada pela Fábula, à qual nos referimos em Dá Guarda(s) à Terra, no dia da Terra de 2020. 

Para além da delicadeza das ilustrações, de que é exemplo a imagem abaixo, apreciamos particularmente a página final, que se desdobra em quatro, apresentando de um lado a grandeza de algo que havia começado apenas numa semente, e, de outro, uma espécie de enciclopédia da árvore que o leitor acompanhou, com informação de caráter científico (estas páginas podem ser vistas AQUI).


Pormenor do interior do livro Começa numa Semente, correspondente à primavera.

Também da Planeta Tangerina, o livro de Isabel Minhós Martins e Yara Kono, de 2017, Cem sementes que voaram. Nesta obra destacamos a paciência e a sabedoria da árvore que viu partir as suas sementes e que soube ficar à espera, mesmo quando parecia que nenhuma tinha sobrevivido. E, na verdade, das cem sementes que voaram, apenas sobreviveram dez… uma opção que encerra, em nosso entender, uma mensagem profunda que em muito pode contribuir para uma maior compreensão e aceitação das leis do Universo. Também falamos desta obra AQUI.

Num tempo dominado pelo ecrã, pela velocidade, pela fragmentação de informação, e pela incerteza, estas leituras apresentam-se como um convite a abrandar, a refletir e a (re)descobrir a beleza e a grandeza do que nos rodeia. Como referiu Pedro Cerrillo, a boa literatura sempre nos ensina algo importante do mundo e da vida, com a sua capacidade de transformar o quotidiano em extraordinário e o estranho em familiar. E essa impressão de que ao ler aprendemos algo, sem saber muito bem o quê, a que se refere o mesmo autor, talvez seja afinal… a Felicidade.

Feliz dia mundial do Livro e felizes Leituras!

[LMB]

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Uma mão cheia de livros para uma Pedagogia da Felicidade | Especial Dia Internacional do Livro Infantil

Que ler traz benefícios ao nível do enriquecimento lexical, da correção ortográfica, do desenvolvimento da imaginação e do aumento da cultura geral, todos sabemos de cor e salteado. Não que todos tenhamos experimentado, mas porque sempre ouvimos dizer... E, se não lemos, ou não lemos mais, é porque "não temos tempo". 

(Alguém a quem este discurso não seja familiar?)

Está na hora de desmontar esta questão.

Seleção de obras para "Uma Pedagogia da Felicidade"

A julgar pelo decréscimo de hábitos de leitura entre os estudantes portugueses, de que nos dá conta o último estudo nesse âmbito, apresentado em setembro de 2020 (1), estas vantagens, socialmente aceites, em torno da leitura, não parecem ser muito convincentes. A verdade é que, não lhe sendo conhecidos benefícios imediatos (leva tempo até que a leitura produza aqueles efeitos), o hábito de ler não é lá muito atrativo. (Uma recompensa longínqua não é grande motivação). 

Ora, estas (conhecidas) vantagens da leitura não são mais do que os seus benefícios colaterais, ou efeitos secundários (bons). Quanto ao seu benefício principal (e mais imediato), parece que ninguém nos falou dele...

A leitura contribui para a nossa felicidade (imediata)!

O poema Felicíssima integra a obra As Fadas Verdes de Matilde Rosa Araújo

E é para que possamos experimentar este efeito, que hoje, dia internacional do Livro Infantil, trazemos uma mão cheia de livros (e mais um de bónus) que são um convite a sentir o tempo, a resgatar a beleza do que nos rodeia, e a abrir caminhos com o coração: para uma Pedagogia da Felicidade. 

"- Mica! Tanto sol pequenino nesta pedra

Cinzenta e escura... Mas tão linda!

Vou chegar fe-li-cís-si-ma ao meu celeiro!"

Este excerto, retirado do poema Felicíssima, de Matilde Rosa Araújo, cuja versão integral pode ser lida na imagem acima, empresta-nos o olhar da formiga para nos determos nas coisas belas. E, se até a formiga é capaz de interromper a sua lida para alimentar o coração de sol, nós também o seremos. Este texto de Matilde, que nas palavras de José A. Gomes, é uma fada "que parece ter nascido para dar graças por existir e por ter encontrado um mundo povoado de Amigos" (2), e cujo centenário de nascimento comemoramos este ano, contém o primeiro ingrediente para uma Pedagogia da Felicidade: contemplar o que é belo e deixar-se inundar de gratidão.

As mais belas coisas do mundo de Valter Hugo Mãe e A Girafa que comia estrelas de José Eduardo Agualusa

Talvez neste momento (nos) estejamos a perguntar "onde vamos arranjar tempo para isso...?" 

Talvez tenhamos encontrado uma resposta possível: A D. Margarida, uma galinha do mato que se tornou amiga de Olímpia, A Girafa que comia Estrelas, depois de muito viajar (pois esta galinha tinha feito ninho numa nuvem) partilha com a amiga as suas conclusões:

“«Os homens», contou ela a Olímpia depois de pensar muito, «os homens são animais estranhos: vivem empoleirados uns em cima dos outros em grandes galinheiros.
Estão sempre com pressa, correm o tempo todo, como formigas, de um lado para o outro, e acham que são felizes assim.»”

Uma mensagem de semelhante teor já nos tinha sido deixada pelo Caracol que vive na Mata dos Medos de Álvaro Magalhães, que todos os anos parte para ver o mar:(falamos dessa obra há um ano, AQUI

“«Vou ver o mar.»
«Outra vez?», perguntou a Toupeira. «Todos os anos partes para ver o mar e todos os anos voltas sem ver o mar.»
O Caracol parou de deslizar.

«E isso que interessa?», perguntou ele, irritado. «Faço sempre uma grande viagem, trago muito que contar. Se já tivesse visto o mar, não podia partir agora para ver o mar»” 

Abrandar e aproveitar cada momento desta jornada que é a nossa vida, talvez seja, então, o segundo ingrediente para uma Pedagogia da Felicidade.

Onde está a felicidade? é um texto que integra a obra O Senhor do seu Nariz e outros contos, de Álvaro Magalhães

E é também de Álvaro Magalhães (um fazedor de leitores), que nos chega o convite para refletirmos sobre as raízes do nosso contentamento. A história do Sr. Pascoal, que protagoniza o conto Onde está a felicidade?, que podemos ler na imagem acima, apresenta-nos aquele que podemos considerar o terceiro ingrediente para uma Pedagogia da Felicidade: na maioria das vezes, a solução para os nossos problemas e inquietações está dentro de nós, ou bem perto de nós. 

Quem também defende esta máxima é Babaï, o cordeirinho que, para combater a solidão das montanhas do Irão, decide fazer um jardim. Procura uma parcela de terra soalheira, próxima de uma nascente e planta O Jardim de Babaï... (mas como? onde vai o cordeirinho descobrir sementes, no meio do deserto?):

"Sementes!

Precisava de todas as espécies de sementes.

Com a passagem do tempo, das estações, o vento fora deixando muitas sementes no corpo coberto de lã de Babaï. Babaï recolheu-as do seu pêlo, uma a uma, com muita paciência e plantou-as delicadamente com as suas patinhas."

O Jardim de Babaï, de Mandana Sadat e Herberto, de Lara Hawthorne

E depois de sermos formigas ou caracóis, de viajarmos à boleia de uma nuvem, ou na mala do Sr. Pascoal, e de nos instalarmos a tomar um chá com um simpático cordeirinho, o que nos faltará ainda descobrir? Talvez aquilo que torna cada um de nós único e especial... 

É uma das lições de Herberto, a lesma que decidiu percorrer um caminho diferente do habitual, que o levou a travar conhecimento com as maravilhosas criações dos seus amigos (a aranha tecedeira, o escaravelho escultor, a formiga arquiteta, e a mariposa dançarina), e..., surpreendentemente, a descobrir que também ele tinha um talento que o tornava único!

Descobrir a diversidade, valorizando e apreciando aquilo que torna cada cada um de nós único e especial poderá ser, então, o quarto ingrediente para uma Pedagogia da Felicidade.

E, neste momento, talvez já estejamos familiarizados com a ideia de os livros também poderem contribuir para a nossa felicidade... 

No entanto, para que não restem dúvidas, a encerrar esta mão cheia de livros (e mais um de bónus), trazemos ainda mais uma achega: pedimo-la de empréstimo a Valter Hugo Mãe, que, num trabalho belíssimo, intitulado As mais belas coisas do mundo, nos deixa aquela que consideramos a quinta e última dica para uma Pedagogia da Felicidade: "A magia de estarmos vivos vem da possibilidade de fazermos acontecer."

"O meu avô sempre me dizia que a melhor parte da vida haveria de ser ainda um mistério e que o importante era viver procurando. 

Eu sei hoje que ele queria dizer que a cada um de nós cabe fazer um esforço para ser melhor, fazer melhor, cuidar melhor de nós próprios e dos outros. A cada um de nós cabe a obrigação de cuidar do mundo, porque o mundo é um condomínio enorme onde todos temos casa.

O meu avô queria dizer que não devemos ficar parados à espera de que algo aconteça. A magia de estarmos vivos vem da possibilidade de fazermos acontecer."


A felicidade pode até não nascer das árvores (embora lá possamos encontrar alguma - ou não fosse primavera!), e podemos achar que também não nasce dos livros... mas isso é só enquanto não nos deixarmos seduzir. Depois de experimentarmos as maravilhas que a leitura pode fazer pela nossa felicidade (e pela dos que nos rodeiam), não saberemos viver sem ela!

A todos, felizes leituras e feliz dia internacional do Livro Infantil!
  

(1) O estudo pode ser consultado AQUI 

(2) Dossiê Matilde Rosa Araújo (Casa da Leitura)

sábado, 20 de março de 2021

Aqui há gatos (literários) que miam em português! (2)

"Era uma vez um gato maltês que tocava piano e falava francês" (será que também dizia poesia?). É provável... Já conhecemos alguns gatos poetas. Lembram-se do Karl, que até abriu uma Palavraria? Falamos dele AQUI.

Ora, para a segunda parte da nossa seleção de gatos literários, reunimos um conjunto de seis obras povoadas de miados e salpicadas de poesia (portuguesa, com certeza!). 


Do património popular às antologias, passando por obras temáticas onde a bicharada em geral e os gatos em particular marcam presença, este conjunto de textos poéticos (com um apontamento de texto breve), completa a nossa seleção de Gatos Literários que miam em português.

(Podem conhecer a primeira parte da seleção AQUI: Encontrarão por lá oito felinos bem simpáticos...)


Estas duas obras, de dois grandes nomes da literatura infantojuvenil portuguesa, Alice Vieira e António Mota, primam pelo humor, ingrediente que é garantia de sucesso em qualquer abordagem à poesia.

A Charada da Bicharada é um trabalho muito bem conseguido no que ao diálogo entre texto verbal e ilustração diz respeito. Cada poema / adivinha de Alice Vieira é completado com uma sugestiva ilustração de Madalena Matoso, que esconde a solução da charada. Na imagem acima podemos ver a dupla página dedicada ao nosso convidado de honra "Felino. As garras prontas."

Na Casa de Palavras, de António Mota, João Vaz de Carvalho e Daniel Completo, uma antologia comemorativa dos 40 anos de vida literária do autor que reúne alguns dos seus mais conhecidos textos poéticos, também há lugar para o gato, ou melhor, para os "Gatos", um divertidíssimo poema, cheio de gatos e de ritmo, que é uma viagem pelos diferentes universos associados a este curioso animal. 

Experimentem, por exemplo, dizer este poema muito depressa - e terão, para além de um momento bem divertido, um interessante trava-línguas! Ou então, experimentem imitar, com recurso à mímica, cada um dos gatos do poema, e transformem-no num concurso de adivinhas! (Imagem acima).


O gato é também presença assídua na sabedoria popular, como o confirma José Viale Moutinho, um apaixonado pela tradição popular, que, num significativo número de obras destinadas à infância, tem dado um enorme contributo para que aos pequenos leitores continuem a chegar estas pérolas: provérbios, lengalengas, adivinhas, contos regionais... é vasta a obra de Viale Moutinho neste domínio. Para integrar a nossa seleção, trouxemos O livrinho de cães & gatos,  que, nas palavras do autor é "uma antologiazinha de provérbios, baralhando os materiais encontrados, mimoseando com ela as meninas e os meninos que têm lá em casa gatos e cães, gatas e cadelas, cachorrinhos, gatinhos, nas suas mais diversas raças ". Esta obra é ilustrada por Fedra Santos. 
Na imagem acima, podemos ver uma página especialmente dedicada ao gato.

E, se um gato maltês fala francês, não poderia faltar nesta seleção um livro onde se juntam animais que até podem escolher a que país querem pertencer: Se os animais escolhessem a sua nacionalidade, um livro para ler em português e em inglês, da autoria de Alice Cardoso e Cátia Vide.  Neste livrinho, ao longo de 14 textos (muito) breves, viajamos por 14 países, e, graças aos animais que os escolheram, ficamos a conhecer 14 curiosidades de todo o mundo. Quem diria que,

"O gato, em homenagem à história "O gato das botas", quereria ser italiano. A Itália parece uma bota pronta a correr para novas aventuras." (imagem acima)


Gatos, Lagartos e outros poemas, de João Pedro Mésseder e Manuela Bacelar, reúne um conjunto de textos poéticos de grande sensibilidade e ternura, a que o autor, aliás, sempre nos habituou. Ao gato, além de um lugar de destaque na capa, é dedicada uma mão cheia de poemas (que podem ser lidos na imagem acima). 

Este trabalho, para além da beleza dos textos e ilustrações que os acompanham, apresenta uma particularidade que lhe acrescenta um valor afetivo sem igual: em cada dupla página, podemos ver, num plano diferente do da ilustração principal, um plano dos autores (autor e ilustrador) que, ao longo da obra vão revelando os seus progressos, as suas angústias, os seus devaneios, abrindo as portas dos bastidores aos leitores. Um trabalho que muito apreciamos. 


E, por último, uma obra de José Jorge Letria e Octavia Monaco, inteiramente dedicada aos gatos: Versos com Gatos. Começa assim:

"O que o gato diz à lua

nem a lua sabe ao certo

é uma conversa de rua

sobre as dunas do deserto.


Está um gato no canteiro

com as rosas a brincar

é veloz e é matreiro

como as estrelas a brilhar.


Há um gato azul marinho

na rima deste poema

vai rimando de mansinho

com perfume de alfazema.


Está um ramo pendurado

nos ramos da madrugada

sem ter medo das alturas

porque namora uma fada."

Ao longo da obra vamos percorrendo, ao som de miados, tempos e lugares, de ontem e de hoje, reais e imaginários... num eterno convite a participar do mistério e da beleza do que nos rodeia...

(Na imagem acima, a última dupla página da obra).

À semelhança do que propusemos na primeira parte desta seleção, desafiamos os nossos leitores a partilhar os seus textos com gatos. Desta vez, o convite vai para a recolha do património popular associado ao gato: provérbios e ditos populares, pequenas histórias, anedotas, etc.

Partilhem connosco, através das nossas páginas de Facebook e Instagram, ou nos comentários aqui no blogue.

Votos de boas leituras, uma feliz Primavera e até breve!

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Aqui há gatos (literários) que miam em português! (1)

Qual é o animal que melhor combina com a Lua?

Pois é, a miar à lua (e não só) andam os gatos no mês de fevereiro, o mês em que, curiosamente, também se comemora o dia do gato (no dia 17). Este felino, além de combinar bem com a Lua (que esteve na base da nossa última seleção de leituras), também combina bem com livros, talvez pela imagem de sossego e relaxamento que encerra, sendo frequente encontrá-lo associado às bibliotecas. 

E foram estes os motivos que nos levaram em busca de gatos literários, ao longo deste mês. E encontramos MUITOS! Desde gatos clássicos, como o Gato de Cheshire, que mora na emblemática obra de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, passando pelo Gato das Botas de Charles Perrault, até ao famoso Zorbas, o herói da História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar. de Luís Sepúlveda, a Literatura (infantojuvenil e não só) está repleta de miados!

Muitos foram, portanto, os gatos literários que saltaram das estantes durante a nossa busca, querendo marcar presença nesta seleção. Não os podendo trazer todos, decidimos focar-nos naqueles que miavam em português.

Selecionamos 14 obras de autoria nacional, que dividimos em dois grupos: prosa e poesia (ou microtexto).

Hoje, vamos conhecer 8 gatos, Radar, Karl, Gatuno, Zacarias, Branquinho, Dourado e ainda dois gatos cujas histórias não revelam o seu nome. As capas encontram-se na imagem acima. Vamos tentar descobrir a que obra pertence cada um destes gatos?


Juntamos Radar e Karl, os gatos que vivem em O Gato e a Rainha Só, uma obra que data de 2005, e que marca a estreia literária de Carla Maia de Almeida para a infância e juventude, um livro ilustrado por Júlio Vanzeler, e o Gato Karl, um trabalho do mesmo ano, de Francisco Duarte Mangas, com ilustrações de Manuela Bacelar, nome maior na história do álbum em Portugal.

Radar, o gato que perde o seu lar, a casa dos plátanos, num incêndio, enceta uma demanda em busca de uma nova casa (tema, aliás, recorrente na obra da autora). Ao longo dos episódios que compõem esta busca, é possível ouvir ecos da incontornável Alice, quer no insólito que os caracteriza, como os nomes dos lugares ("Terra do Silêncio Prometido"; "Terra da Água Salgada"; "Terra do Riso Eterno"); quer na originalidade de alguns elementos, como "A Sopa de Tudo", "A Máquina de costurar Palavras", o "Telecaleidoscópio" ou o "DMA" ("dia de miar alto"); quer ainda nas próprias reflexões que o gato tece, como por exemplo:

"Se não tinha sítio para onde voltar, talvez não estivesse realmente perdido" (...)

"Bem... se o tempo tiver cheiro, talvez os sonhos possam ter sabor, não é?"

Karl, à semelhança de Radar, é também um gato com sonhos, que partilha com o narrador. Faz reuniões com outros gatos (e também com ratos) debaixo da magnólia, debate-se com a desmedida ambição humana, e coleciona palavras no seu caderninho de capas cor de fogo.

"Karl, ao contrário dos outros gatos, em vez de dormir cingido no sol, ilude o tempo a ler. É delicado a folhear os livros: não humedece a pata na língua ao virar a página, nem dobra o canto da folha para marcar o fim da leitura. Algumas das palavras dos livros, desloca-as, como fragmentos de um tesouro, para um caderninho de capas  cor de fogo."

E são as palavras que Karl (ajudado pelos seus amigos) criteriosamente seleciona e guarda no seu caderninho, que vão dar origem à Palavraria, uma loja bem original, instalada na magnólia onde decorrem as reuniões, e que mora noutra obra do autor O Gato Karl e a Palavraria (estas obras integraram o programa ELF 3). 


Gatuno, Branquinho e Zacarias são os gatos que vivem em O Livro dos Quintais de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (2010), uma das obras que integra a trilogia Histórias Paralelas, Episódios da Vida de um Jovem Gato, obra que marca a estreia literária de Raquel Ramos no universo infantojuvenil, um trabalho com ilustrações de Carla Nazareth, de 2014, e O Moleiro e as Três Árvores, uma obra de Conceição Vicente, ilustrada por Cátia Vidinhas, editada no mesmo ano.

O Livro dos Quintais é um claro convite à descoberta e ao jogo, um passeio pelos 8 quintais que dão corpo à narrativa e pelas rotinas dos que os habitam, ao longo dos 12 meses do ano. À sombra deste registo "lúdico", a obra dialoga incessantemente com o leitor, através da subtileza das descrições, e da voz que é emprestada aos habitantes daqueles quintais, vozes que bem poderiam ser as nossas. 

É curioso o modo como os autores fogem aos lugares-comuns, que normalmente se associam aos meses e estações do ano, como as festividades, colocando a tónica, antes, na relação do homem com a natureza. Vejamos, por exemplo, o texto correspondente ao mês de fevereiro:

"Fevereiro

D. Otília corre a espreitar a horta todas as manhãs.

Não tarda hão de ver-se os primeiros rebentos de favas e ervilhas.

Nos dias de sol, vem sentar-se cá fora, mãos no colo, muito quieta:

«Se olhar com atenção, consigo ver crescer cada talo que aqui está»

A Carolina e o Tiago vivem mascarados há quinze dias. A vizinha, no outro dia, até se assustou com um deles dependurado num ramo:

«- Que miúdos do diabo... Se fossem meus netos, dizia-lhes!»

Em fevereiro, o Gatuno enrosca-se sossegado aos pés da D. Otília."

E, assim, ao finalizar cada dupla página, o leitor enceta uma verdadeira caça ao Gatuno (quase a lembrar o clássico Onde está o Wally), entre a multiplicidade de pormenores que compõem as belíssimas ilustrações, também elas a lembrar os desenhos e pinturas das crianças. Só em dezembro, durante o casamento de dois vizinhos (o amor acontece, curiosamente, entre os habitantes mais sensíveis à beleza naturalmente presente) saberemos porque é que o Gatuno se chama Gatuno. 

Branquinho é um gato sensível que, não aguentando a chegada de um novo membro da família, abandona o conforto da Casa Grande de Barras Amarelas. Episódios da vida de um jovem gato representa uma viagem iniciática, a busca por um lugar no mundo. Trata-se de um relato delicioso, sensível, onde a palavra e a poesia têm um lugar e uma força especiais. 

É fora dos muros da Casa que Branquinho vai conhecer o ciúme, a desilusão e o desespero. Mas é também ao longo desta jornada de descoberta que o nosso herói, auxiliado pelo velho pescador poeta, vai descobrir o algodão azul do céu, a força da palavra Querer e o poder do Sonho.  

"- Hoje mesmo vais aprender a ler. Mais tarde levo-te a um lugar onde encontrarás remédio para a tua tristeza.

Aquela era a primeira vez que o velho se referia ao meu segredo. Sem mais delongas começou nesse momento a ensinar-me a ler.

Primeiro aprendi a soletrar a palavra mar, depois água, peixe, gaivota, barco e liberdade. A seguir introduziu as palavras amizade, amor, juventude, perdão, felicidade, consciência, viver e sonhar."

Zacarias é o gato do moinho, uma interessante personagem que Conceição Vicente acrescenta a um conto popular recolhido na região de Águeda, O Moleiro e as Três Árvores. Trata-se, em nosso entender, de um texto que é um genuíno elogio à Sabedoria da Natureza, aqui representada pelas árvores. Zacarias é quem estabelece a ligação entre o Homem e o ambiente. Sensível e conhecedor de leis maiores, é ele que avisa os donos do moinho que o rodízio se partiu, é ele que "sente um arrepio" quando o dono pega num machado para abater nova árvore para construir um rodízio, e é ele que, indignado, abandona o moleiro que não deu ouvidos à voz do Carvalho,

"Como é que o moleiro tinha tido coragem para derrubar o carvalho? Era lá que morava o pica-pau que animava o bosque com a sua batida; era lá que os melros faziam ninho; e era encostado ao seu tronco que ele sempre dormira a sesta. Zacarias fixou o dono e deixou sair a raiva pelos olhos. Iria vingar-se, podia o moleiro estar certo!"

E, a partir daqui, tudo se precipita: os sacos de grão ficam esburacados, pois Zacarias deixou de caçar os ratos do moinho, e as águas do rio, na primeira cheia, levam o engenho.

No entanto, o moleiro aprende a lição. E depois de plantado um novo carvalho, "Zacarias voltou ao moinho e passou a dormir a sesta junto ao tronco do carvalho novo." 

Alguns gatos literários moram em livros que abordam temas fraturantes, como a morte. Estes livros são uma excelente oportunidade para abordar, com subtileza, as questões mais inquietantes que moram no íntimo de cada um de nós.

Gato procura-se, um livro de Ana Saldanha e Yara Kono (2014), apresenta, de um modo muito interessante, a forma como reagem à morte (neste caso, do animal de estimação) o adulto e a criança. Pela voz do narrador criança, vamos conhecendo as "desculpas" que os adultos (o pai, a mãe, a vizinha, o avô, a avó) vão dando para o desaparecimento do gato. Quanto mais próximo o familiar, mais distante a verdade. Recolhidas todas as opiniões, a criança deixa ao adulto uma mensagem subtil (ou um apelo à honestidade):

"O meu gato desapareceu. E eu sei que nunca mais volta, mas não digo nada. É que não é para eu saber o que é que lhe aconteceu."

Já a obra Um gato tem sete vidas, de Luísa Ducla Soares e Francisco Cunha (2011), é uma interessante viagem pelas 7 vidas do gato, pelos sucessivos encontros que vai tendo com a Morte, que a ilustração nos apresenta como um pacífico gato branco, e pelo acolhimento tranquilo que o gato lhe oferece quando chega ao fim das suas 7 vidas. 

"Foi então que novamente viu a morte.

- Olá meu querido amigo - disse ela, e o gato enroscou-se à volta das suas pernas.

- Que me contas? - perguntou a morte. Há muito que não te via.

- Sinto-me tão fraco. Já vivi sete vidas.

A morte pegou-lhe ao colo, passou as mãos esqueléticas pela sua pelagem, devagarinho, e pôs-se a cantar como alguém lhe cantara quendo ele era pequenino. (...)"

Ao longo de 7 breves capítulos, que corporizam os 7 encontros com a Morte, que vem buscar 1) uma galinha que imitou os patos e se precipitou num lago, 2) um pássaro bebé que caiu numa pedra ao ensaiar o voo, 3) um cão que foi atropelado, 4) um porco em dia de matança, 5) um peixe que saltou do aquário,  6) uma noiva com diarreia, e 7) os soldados na guerra, os autores vão apresentando a morte de um modo tão natural, que a familiarização do pequeno (e grande) leitor com o tema acontece, também, naturalmente.

E, por último, não podia deixar de marcar presença nesta seleção um trabalho de Matilde Rosa Araújo, autora cujo centenário de nascimento comemoramos este ano: O Gato Dourado, um conto de 1977, que integra a obra com o mesmo título, que reúne um conjunto de 7 pequenos contos, lustrados por outro dos nomes maiores da ilustração em Portugal, Maria Keil.

Marcado pela sensibilidade que caracteriza a escrita de Matilde, onde não faltam as flores e as crianças, este conto narra o modo como uma menina reage à morte do seu gato Dourado, como a integra no ciclo natural das coisas e da vida, e como faz "luz da sua tristeza", sob o olhar ternurento da mãe. Podemos conhecê-lo na imagem abaixo.


E está completa a primeira parte da nossa viagem pelo universo felino na literatura portuguesa para a infância e juventude. Ficam, naturalmente, fora desta seleção muitos títulos e autores interessantes, que marcarão, certamente, presença noutras viagens (por exemplo, na que vamos propor no desafio que apresentamos abaixo).

Regressaremos em breve, para a segunda parte desta seleção: os gatos na poesia portuguesa para a infância!

Aqui fica, então, o desafio:

Vamos em busca de outros gatos literários? É só vestir a capa de detetive de livros, agarrar a lupa e seguir o rasto das garras e dos bigodes... 

Partilhem as vossas descobertas nos comentários ou nas nossas páginas de Facebook e Instagram.

Boas leituras e boas descobertas!

[LMB]