sábado, 27 de fevereiro de 2021

Aqui há gatos (literários) que miam em português! (1)

Qual é o animal que melhor combina com a Lua?

Pois é, a miar à lua (e não só) andam os gatos no mês de fevereiro, o mês em que, curiosamente, também se comemora o dia do gato (no dia 17). Este felino, além de combinar bem com a Lua (que esteve na base da nossa última seleção de leituras), também combina bem com livros, talvez pela imagem de sossego e relaxamento que encerra, sendo frequente encontrá-lo associado às bibliotecas. 

E foram estes os motivos que nos levaram em busca de gatos literários, ao longo deste mês. E encontramos MUITOS! Desde gatos clássicos, como o Gato de Cheshire, que mora na emblemática obra de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, passando pelo Gato das Botas de Charles Perrault, até ao famoso Zorbas, o herói da História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar. de Luís Sepúlveda, a Literatura (infantojuvenil e não só) está repleta de miados!

Muitos foram, portanto, os gatos literários que saltaram das estantes durante a nossa busca, querendo marcar presença nesta seleção. Não os podendo trazer todos, decidimos focar-nos naqueles que miavam em português.

Selecionamos 14 obras de autoria nacional, que dividimos em dois grupos: prosa e poesia (ou microtexto).

Hoje, vamos conhecer 8 gatos, Radar, Karl, Gatuno, Zacarias, Branquinho, Dourado e ainda dois gatos cujas histórias não revelam o seu nome. As capas encontram-se na imagem acima. Vamos tentar descobrir a que obra pertence cada um destes gatos?


Juntamos Radar e Karl, os gatos que vivem em O Gato e a Rainha Só, uma obra que data de 2005, e que marca a estreia literária de Carla Maia de Almeida para a infância e juventude, um livro ilustrado por Júlio Vanzeler, e o Gato Karl, um trabalho do mesmo ano, de Francisco Duarte Mangas, com ilustrações de Manuela Bacelar, nome maior na história do álbum em Portugal.

Radar, o gato que perde o seu lar, a casa dos plátanos, num incêndio, enceta uma demanda em busca de uma nova casa (tema, aliás, recorrente na obra da autora). Ao longo dos episódios que compõem esta busca, é possível ouvir ecos da incontornável Alice, quer no insólito que os caracteriza, como os nomes dos lugares ("Terra do Silêncio Prometido"; "Terra da Água Salgada"; "Terra do Riso Eterno"); quer na originalidade de alguns elementos, como "A Sopa de Tudo", "A Máquina de costurar Palavras", o "Telecaleidoscópio" ou o "DMA" ("dia de miar alto"); quer ainda nas próprias reflexões que o gato tece, como por exemplo:

"Se não tinha sítio para onde voltar, talvez não estivesse realmente perdido" (...)

"Bem... se o tempo tiver cheiro, talvez os sonhos possam ter sabor, não é?"

Karl, à semelhança de Radar, é também um gato com sonhos, que partilha com o narrador. Faz reuniões com outros gatos (e também com ratos) debaixo da magnólia, debate-se com a desmedida ambição humana, e coleciona palavras no seu caderninho de capas cor de fogo.

"Karl, ao contrário dos outros gatos, em vez de dormir cingido no sol, ilude o tempo a ler. É delicado a folhear os livros: não humedece a pata na língua ao virar a página, nem dobra o canto da folha para marcar o fim da leitura. Algumas das palavras dos livros, desloca-as, como fragmentos de um tesouro, para um caderninho de capas  cor de fogo."

E são as palavras que Karl (ajudado pelos seus amigos) criteriosamente seleciona e guarda no seu caderninho, que vão dar origem à Palavraria, uma loja bem original, instalada na magnólia onde decorrem as reuniões, e que mora noutra obra do autor O Gato Karl e a Palavraria (estas obras integraram o programa ELF 3). 


Gatuno, Branquinho e Zacarias são os gatos que vivem em O Livro dos Quintais de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho (2010), uma das obras que integra a trilogia Histórias Paralelas, Episódios da Vida de um Jovem Gato, obra que marca a estreia literária de Raquel Ramos no universo infantojuvenil, um trabalho com ilustrações de Carla Nazareth, de 2014, e O Moleiro e as Três Árvores, uma obra de Conceição Vicente, ilustrada por Cátia Vidinhas, editada no mesmo ano.

O Livro dos Quintais é um claro convite à descoberta e ao jogo, um passeio pelos 8 quintais que dão corpo à narrativa e pelas rotinas dos que os habitam, ao longo dos 12 meses do ano. À sombra deste registo "lúdico", a obra dialoga incessantemente com o leitor, através da subtileza das descrições, e da voz que é emprestada aos habitantes daqueles quintais, vozes que bem poderiam ser as nossas. 

É curioso o modo como os autores fogem aos lugares-comuns, que normalmente se associam aos meses e estações do ano, como as festividades, colocando a tónica, antes, na relação do homem com a natureza. Vejamos, por exemplo, o texto correspondente ao mês de fevereiro:

"Fevereiro

D. Otília corre a espreitar a horta todas as manhãs.

Não tarda hão de ver-se os primeiros rebentos de favas e ervilhas.

Nos dias de sol, vem sentar-se cá fora, mãos no colo, muito quieta:

«Se olhar com atenção, consigo ver crescer cada talo que aqui está»

A Carolina e o Tiago vivem mascarados há quinze dias. A vizinha, no outro dia, até se assustou com um deles dependurado num ramo:

«- Que miúdos do diabo... Se fossem meus netos, dizia-lhes!»

Em fevereiro, o Gatuno enrosca-se sossegado aos pés da D. Otília."

E, assim, ao finalizar cada dupla página, o leitor enceta uma verdadeira caça ao Gatuno (quase a lembrar o clássico Onde está o Wally), entre a multiplicidade de pormenores que compõem as belíssimas ilustrações, também elas a lembrar os desenhos e pinturas das crianças. Só em dezembro, durante o casamento de dois vizinhos (o amor acontece, curiosamente, entre os habitantes mais sensíveis à beleza naturalmente presente) saberemos porque é que o Gatuno se chama Gatuno. 

Branquinho é um gato sensível que, não aguentando a chegada de um novo membro da família, abandona o conforto da Casa Grande de Barras Amarelas. Episódios da vida de um jovem gato representa uma viagem iniciática, a busca por um lugar no mundo. Trata-se de um relato delicioso, sensível, onde a palavra e a poesia têm um lugar e uma força especiais. 

É fora dos muros da Casa que Branquinho vai conhecer o ciúme, a desilusão e o desespero. Mas é também ao longo desta jornada de descoberta que o nosso herói, auxiliado pelo velho pescador poeta, vai descobrir o algodão azul do céu, a força da palavra Querer e o poder do Sonho.  

"- Hoje mesmo vais aprender a ler. Mais tarde levo-te a um lugar onde encontrarás remédio para a tua tristeza.

Aquela era a primeira vez que o velho se referia ao meu segredo. Sem mais delongas começou nesse momento a ensinar-me a ler.

Primeiro aprendi a soletrar a palavra mar, depois água, peixe, gaivota, barco e liberdade. A seguir introduziu as palavras amizade, amor, juventude, perdão, felicidade, consciência, viver e sonhar."

Zacarias é o gato do moinho, uma interessante personagem que Conceição Vicente acrescenta a um conto popular recolhido na região de Águeda, O Moleiro e as Três Árvores. Trata-se, em nosso entender, de um texto que é um genuíno elogio à Sabedoria da Natureza, aqui representada pelas árvores. Zacarias é quem estabelece a ligação entre o Homem e o ambiente. Sensível e conhecedor de leis maiores, é ele que avisa os donos do moinho que o rodízio se partiu, é ele que "sente um arrepio" quando o dono pega num machado para abater nova árvore para construir um rodízio, e é ele que, indignado, abandona o moleiro que não deu ouvidos à voz do Carvalho,

"Como é que o moleiro tinha tido coragem para derrubar o carvalho? Era lá que morava o pica-pau que animava o bosque com a sua batida; era lá que os melros faziam ninho; e era encostado ao seu tronco que ele sempre dormira a sesta. Zacarias fixou o dono e deixou sair a raiva pelos olhos. Iria vingar-se, podia o moleiro estar certo!"

E, a partir daqui, tudo se precipita: os sacos de grão ficam esburacados, pois Zacarias deixou de caçar os ratos do moinho, e as águas do rio, na primeira cheia, levam o engenho.

No entanto, o moleiro aprende a lição. E depois de plantado um novo carvalho, "Zacarias voltou ao moinho e passou a dormir a sesta junto ao tronco do carvalho novo." 

Alguns gatos literários moram em livros que abordam temas fraturantes, como a morte. Estes livros são uma excelente oportunidade para abordar, com subtileza, as questões mais inquietantes que moram no íntimo de cada um de nós.

Gato procura-se, um livro de Ana Saldanha e Yara Kono (2014), apresenta, de um modo muito interessante, a forma como reagem à morte (neste caso, do animal de estimação) o adulto e a criança. Pela voz do narrador criança, vamos conhecendo as "desculpas" que os adultos (o pai, a mãe, a vizinha, o avô, a avó) vão dando para o desaparecimento do gato. Quanto mais próximo o familiar, mais distante a verdade. Recolhidas todas as opiniões, a criança deixa ao adulto uma mensagem subtil (ou um apelo à honestidade):

"O meu gato desapareceu. E eu sei que nunca mais volta, mas não digo nada. É que não é para eu saber o que é que lhe aconteceu."

Já a obra Um gato tem sete vidas, de Luísa Ducla Soares e Francisco Cunha (2011), é uma interessante viagem pelas 7 vidas do gato, pelos sucessivos encontros que vai tendo com a Morte, que a ilustração nos apresenta como um pacífico gato branco, e pelo acolhimento tranquilo que o gato lhe oferece quando chega ao fim das suas 7 vidas. 

"Foi então que novamente viu a morte.

- Olá meu querido amigo - disse ela, e o gato enroscou-se à volta das suas pernas.

- Que me contas? - perguntou a morte. Há muito que não te via.

- Sinto-me tão fraco. Já vivi sete vidas.

A morte pegou-lhe ao colo, passou as mãos esqueléticas pela sua pelagem, devagarinho, e pôs-se a cantar como alguém lhe cantara quendo ele era pequenino. (...)"

Ao longo de 7 breves capítulos, que corporizam os 7 encontros com a Morte, que vem buscar 1) uma galinha que imitou os patos e se precipitou num lago, 2) um pássaro bebé que caiu numa pedra ao ensaiar o voo, 3) um cão que foi atropelado, 4) um porco em dia de matança, 5) um peixe que saltou do aquário,  6) uma noiva com diarreia, e 7) os soldados na guerra, os autores vão apresentando a morte de um modo tão natural, que a familiarização do pequeno (e grande) leitor com o tema acontece, também, naturalmente.

E, por último, não podia deixar de marcar presença nesta seleção um trabalho de Matilde Rosa Araújo, autora cujo centenário de nascimento comemoramos este ano: O Gato Dourado, um conto de 1977, que integra a obra com o mesmo título, que reúne um conjunto de 7 pequenos contos, lustrados por outro dos nomes maiores da ilustração em Portugal, Maria Keil.

Marcado pela sensibilidade que caracteriza a escrita de Matilde, onde não faltam as flores e as crianças, este conto narra o modo como uma menina reage à morte do seu gato Dourado, como a integra no ciclo natural das coisas e da vida, e como faz "luz da sua tristeza", sob o olhar ternurento da mãe. Podemos conhecê-lo na imagem abaixo.


E está completa a primeira parte da nossa viagem pelo universo felino na literatura portuguesa para a infância e juventude. Ficam, naturalmente, fora desta seleção muitos títulos e autores interessantes, que marcarão, certamente, presença noutras viagens (por exemplo, na que vamos propor no desafio que apresentamos abaixo).

Regressaremos em breve, para a segunda parte desta seleção: os gatos na poesia portuguesa para a infância!

Aqui fica, então, o desafio:

Vamos em busca de outros gatos literários? É só vestir a capa de detetive de livros, agarrar a lupa e seguir o rasto das garras e dos bigodes... 

Partilhem as vossas descobertas nos comentários ou nas nossas páginas de Facebook e Instagram.

Boas leituras e boas descobertas!

[LMB]


domingo, 31 de janeiro de 2021

Os Livros da Lua

A lua sempre exerceu um grande fascínio sobre os escritores em geral, e sobre os poetas em particular. Carregada de simbolismo, a lua marca presença num sem número de textos, do património popular à literatura mais erudita.  

De algum modo imbuídos pelo famoso luar de janeiro, fomos em busca da lua em algumas obras literárias destinadas especialmente à infância. E, tomando como mote o célebre provérbio, poderíamos atrever-nos a dizer que "Leituras de janeiro iluminam o ano inteiro". 

Convidamos os nossos leitores a percorrer um conjunto de oito obras, e a descobrir Os Livros da Lua (ou será a Lua dos Livros?)

Começamos pela poesia de João Pedro Mésseder, que dedica, no seu livrinho Canções do Ar e das coisas Altas, dois poemas à lua : "Lua" e "Lua quebrada". Decidimo-nos por partilhar o segundo.

"Lua quebrada

Dormindo
na noite sem nuvens
o lago é uma toalha de prata
onde a lua inteira se mira.

Mas se alguém
atira uma pedra
e a faz saltar nesse espelho
logo a lua se quebra."

(João Pedro Mésseder, 2018)

Este trabalho de João Pedro Mésseder, que conta com belíssimas ilustrações de Rachel Caiano, reúne um conjunto de 30 poemas, que, em nosso entender, bem poderia subintitular-se de achegas para elevar o espírito.


Ainda dentro do texto poético, não poderia faltar nesta seleção este maravilhoso trabalho de José Jorge Letria e André Letria, Versos para os pais lerem aos filhos em noites de luar, que é um genuino elogio à ternura, à descoberta, à imaginação, à palavra e à leitura.

"Com versos da cor da lua
és tão grande e pequenino
como esta página branca
em que leio o teu destino. (...)"

(José Jorge Letria, 2003)

É com estes versos que os autores abrem este delicioso álbum poético, composto por 27 pequenos textos e 27 grandes ilustrações, de onde espreitam muitos mundos, e para os quais são convocadas vozes diversas, incluindo as que habitam os mundos possíveis da literatura, como o Pinóquio ou a Alice.

"Cada palavra que aprendes
quando começas a ler
é o mundo a conversar
com quem o quer conhecer. (...)"

(José Jorge Letria, 2003)


Reeditada em 2020, pela Akiara books, chega-nos esta interessante obra assinada por Jordi Amenós e Albout Arrayás. Neste trabalho vemos revisitada a intrínseca necessidade que o ser humano tem de histórias, para explicar os diversos fenómenos do mundo e da vida. 
Pela mão da criança que protagoniza a narrativa, o leitor é convidado a percorrer as diferentes explicações que o círculo de amigos de Paulo lhe vai adiantando em relação à questão que dá título ao livro Onde está a lua? Um conjunto de explicações bem inusitadas!
E o mais curioso é o facto de, mesmo depois de explicado o mistério (pela professora), o Paulo e os colegas continuarem a preferir acreditar que "a lua era uma bola de futebol com sabor a baunilha, cheia de lâmpadas e muito, muito vaidosa."


A curiosidade em relação à lua, que inclui a vontade de lhe chegar e de a provar, marca presença em obras como Papá, por favor, apanha-me a Lua, do incontornável Eric Carle, e A que sabe a Lua? de Michael Grejniec. 
Ambos os trabalhos remetem para uma reflexão sobre a literatura enquanto lugar de concretização da utopia. 
No primeiro exemplo, o pai de Mónica, atendendo a um pedido da filha, vai buscar uma escada muito comprida, que encosta a uma montanha muito alta, para daí chegar à lua e trazê-la para Mónica brincar (mesmo tendo que esperar pelo tamanho certo da lua). Enriquecido com páginas que se desdobram, em diferentes direções, acompanhando o caminho do pai de Mónica para chegar à lua, este livro parece sugerir que a leitura extravasa o limite das próprias páginas.
No segundo exemplo, para além do princípio da entreajuda e do habitualmente subestimado valor dos mais fracos, recuperado de textos do património popular (como O Nabo Gigante ou O Coelhinho Branco), outras questões se levantam: atente-se, por exemplo, no facto de ser a tartaruga a tomar a iniciativa e a suportar o peso dos restantes animais; ou na participação ativa da lua que "entra no jogo" dos animais; ou ainda no olhar do peixe, que "tinha visto tudo sem entender nada"...


Movido pela curiosidade em relação ao sabor da lua, é também Xico, o rato que protagoniza a obra com o mesmo nome, um trabalho de Paula Carballeira e de Blanca Barrio. Tendo ouvido dizer que a lua era feita de queijo fresco, Xico, à boleia de uma nave espacial, chega à Lua... mas quando se decide a dar-lhe uma dentada, algo inesperado acontece, deixando o nosso Rato da Lua muito triste e com saudades da Terra, das montanhas, dos rios, das árvores e do vento, dos outros ratos e... até dos gatos! Ainda bem que a lua estava em quarto crescente, podendo assim embalar e consolar o Xico... 


E, se quem vai à lua fica com saudades da Terra, o contrário também pode acontecer: é o que nos conta Tomi Ungerer no trabalho que lhe valeu o prémio Hans Christian Andersen, em 1998, O Homem da Lua.
A história começa com o que poderíamos considerar mais uma resposta à tão popular e emblemática questão "o que se vê na lua?"

"Nas noites claras e estreladas, o Homem da Lua pode ser visto no espaço, encolhido no seu pequeno lugar cintilante."

O que o leitor talvez não espere é que o Homem da Lua tenha "inveja" das pessoas alegres que vê lá de cima, a dançar e a festejar. 
Um dia, à boleia de uma estrela cadente, o Homem da Lua chegou à Terra, não imaginando, porém, que iria provocar um tremendo alvoroço, só porque era um "misterioso visitante", ao qual decidiram chamar de "invasor". A estadia do Homem da Lua na Terra não foi, pois, nada do que ele havia imaginado (e visto lá de cima), e não fosse a sua natureza crescente e minguante, se calhar ainda hoje estaria atrás das grades, de onde se escapuliu, para grande espanto dos polícias. Depois de um conjunto de peripécias, contadas com o humor e a sátira tão característicos de Ungerer, o nosso herói consegue, enfim, regressar "a casa", onde o continuamos a ver em noites claras "encolhido no seu espaço cintilante."


A encerrar a nossa seleção de Livros da Lua, trazemos A Lua Ladra, uma obra com texto de Pablo Albo e com ilustrações do inconfundível Pierre Prat.
Se, por um lado, podemos considerar este trabalho um hino à imaginação, pela ampliação de possibilidades que oferece (talvez a Lua ainda não tenha entrado muitas vezes no rol de culpados do desparecimento das chupetas...), por outro lado parece encerrar uma subtil mensagem da criança para o adulto que teima em inventar "desculpas e mentiras" para responder a determinadas perguntas da criança.

"Um dia a minha chupeta desapareceu.
A mãe disse-me que a lua a tinha levado.
- Mentira! Como é que tu sabes? - perguntei-lhe eu.
- Porque ela não está a chorar - respondeu ela.
- Não, não é por isso."

A pequena narradora desta história bem sabe que não voltará a ter a sua chupeta, mas entra no jogo da lua (ou da mãe), para a tentar recuperar, decidindo (livremente), no final, que a lua precisa mais da chupeta do que ela.


Ficam, naturalmente, muitas obras de indiscutível valor fora desta seleção. Não cabem todas neste espaço. No entanto, é bem possível que voltemos à lua para folhear mais alguns dos seus livros.
Por agora, prometemos aos nossos leitores um divertido desafio. Acompanhem-nos, ao longo dos próximos dias, no nosso Facebook e no nosso Instagram, e participem no jogo "A que história pertenço?" Iremos partilhar alguns excertos destas oito obras, e pedir-vos que adivinhem a que livro pertencem. As pistas que aqui deixamos hoje podem ser uma preciosa ajuda...

Boas leituras e até já!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Com o coração nos livros | de 2020 com amor

A encerrar um ano que ficará na memória de todos nós, sentimo-nos de alma cheia e de coração a transbordar. Apesar de 2020, e graças a 2020, a família ELF cresceu, novos livros conheceram novos leitores (e alguns conquistaram lugares especiais na vida de muitos de nós). 

Ao longo do ano, contamos com mais uma edição ELF, que nos fez regressar ao lugar onde tudo começou; criamos e dinamizamos as rubricas Fiquem em casa e (re)descubram o prazer e ler juntos e Calendário de Leituras de Advento, que possibilitaram experiências de proximidade e de novas abordagens aos livros; apresentamos mais de 130 sugestões de leitura, distribuídas por diferentes temas e rubricas, e mais de 100 propostas de atividades; estreitamos a comunicação com os nossos leitores no Facebook e no Instagram; continuamos a integrar as ações aLer+2027; fomos duplamente distinguidos com o selo Escola Amiga da Criança; e brindados com maravilhosas partilhas de experiências, que se traduziram em belíssimos trabalhos

Não é, portanto, de estranhar que estejamos de alma cheia e de coração a transbordar: OBRIGADA A TODOS! 

Em jeito de agradecimento, trazemos uma seleção de livros com coração dentro (pois ao coração todos falam). São quatro obras de 2020 que, em nosso entender, encerram uma poderosa e pertinente mensagem para uma era que se quer nova.

Estes quatro trabalhos, que se ligam pelo coração, abrigam quatro histórias de amor bem distintas entre si. A alma perdida, uma obra da polaca Olga Tokarczuk, prémio nobel da literatura, ilustrada pela inconfundível Joanna Concejo, dirige-se a pequenos e (sobretudo) a grandes leitores, e constitui uma poderosa reflexão sobre o ritmo frenético que atualmente levamos (e com o qual compactuamos), e as consequências de uma vida de superficialidade. 

Revemo-nos com facilidade em Jan, o protagonista, que depois de um episódio em que se esquece de quem é, recorre a uma sábia médica que lhe apresenta um curioso diagnóstico e um inesperado tratamento:

"- Se alguém pudesse olhar para nós lá do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que correm apressadas, transpiradas e muito cansadas, e que atrás delas correm apressadas as suas almas perdidas (...)"

"(...) O senhor tem de encontrar um lugar onde se sinta bem, sentar-se aí tranquilamente e aguardar pela sua alma. (...)"

Pormenores do miolo de A Alma Perdida

E foi o que Jan fez. Depois de encontrar uma casinha nos arredores da cidade, sentou-se à espera da sua alma. 
O reduzido texto verbal que integra a obra é compensado pelo espaço dado às ilustrações, responsáveis pelo caminho de leitura de cada um. 
Atendamos, por exemplo, em aspetos como a passagem do tempo (que nos é revelada pelo crescimento da barba e do cabelo de Jan), ou da transformação dos espaços, com a chegada da "alma" do protagonista, representada por uma criança. 
Esta história de amor, que termina como as dos contos de fadas, apresenta a Infância (o tempo da curiosidade e do deslumbramento) e a Natureza (com os seus ritmos e o seu tempo lento) como lugares de regresso à essência e de resgate do essencial:

"Desde então, viveram felizes para sempre e Jan passou a ter muito cuidado para não fazer nada demasiado depressa de modo que a sua alma conseguisse acompanhá-lo. (...)"

Pormenores do miolo de A Alma Perdida

A história de amor que se vive em Os sinais do Coração, um trabalho muito original, com texto do brasileiro Guilherme Semionato e ilustrações (bem nacionais) de Gabriela Sotto Mayor, é tão inesperada quanto insólita. Tal como a escolha anterior, é também um livro para ler muitas vezes, atendendo aos vários níveis de leitura que apresenta.
Detenhamo-nos, por exemplo, na observação das guardas (imagem abaixo). A transformação dos elementos que compõem a paisagem, embora nos forneça pistas valiosas, só no final da leitura revelará o(s) seu(s) sentido(s).

A história de amor que aqui se vive é protagonizada pelo Til e pela Cedilha que moram na palavra CORAÇÃO. E só acontece porque "(...) por vezes, mesmo as almas mais quietas querem estender a mão para alguém".

Guardas e pormenor do miolo de Os Sinais do Coração

E é então que o Cupido ataca. Depois de um divertido encontro, onde os dois se conhecem (excerto abaixo), esta história tem direito a tudo o que uma boa história de amor tem direito: o amor à primeira vista, o namoro, os cúmplices, "os do contra", a preparação da boda, a chegada dos convidados, o casamento e a festa, a lua de mel (e as suas peripécias), e a nova vida do casal, que passa a morar na palavra HABITAÇÃO.

"- Oi. Quem é você? - perguntou a Cedilha.
- Eu sou o Til.
- Tio? Tio de quem?
- Til, com l de lombriga.
- Ah! Então você não é tio de ninguém?
- Não. Sou filho único.
- Qual é o nome de sua mãe?
- Mãe. Todo Til nasce da palavra Mãe. Nós ficamos perto dela o máximo que dá, mas uma hora temos de viver em outras palavras.
- Aí, você veio parar aqui? (...)"

Este trabalho encerra a velha máxima sobre o poder que a literatura tem de tornar extraordinárias as coisas aparentemente "vulgares". É, com efeito, e tendo como cenário o dicionário, que os autores constroem um profícuo diálogo entre signos, significados e sentidos, capazes de abrir um amplo leque de leituras e interpretações (que podem ir, por exemplo, da simples história de amor às diferentes representações da família - até as mais controversas). 
O humor, que ora é conferido pelo texto, ora por apontamentos pictóricos,  associado à explosão sensorial que emana da ilustração, completam o cenário desta bonita história com coração dentro.

Pormenores do miolo de Os Sinais do Coração

A história de amor se se segue mora num delicado livrinho, onde as palavras se vestem de poesia e falam diretamente ao coração. Falamos de Coração de Pássaro, uma obra de Mar Benegas e Rachel Caiano, que conhecemos, quase por acaso, neste belo espaço limiano, onde os livros têm um lugar especial.
Nesta obra, o leitor entra logo em modo poético ao ler a apresentação das autoras (imagem abaixo), aspeto que apreciamos particularmente na Akiara.
Com a busca da poesia (e da beleza) como fio condutor, esta história de amor, protagonizada por Nana e Martim, é feita de sensibilidade e delicadeza, e traduzida para uma linguagem de que só os poetas são capazes.

"Porque os olhos de Nana eram um vulcão de areia lunar. Observavam um melro e transformavam-no num bosque.(...)"

"E Nana tinha um amigo. Era o seu vizinho, filho do padeiro. 
Ali permaneceram muito tempo juntos, escutando aquele diálogo interminável. E o Martim mostrou um bolo, quase acabado de fazer, e partilharam-no. E deram um beijo.
- Ah. Então eu também gosto de poesia - concluiu ele.
E o Martim pensou que a poesia eram pedras e búzios. (...)"

Pormenores da capa e ficha técnica de Coração de Pássaro

E é entre a aldeia de pescadores onde os dois vivem, e onde a menina tenta encontrar métodos para escrever poesia, a cidade para onde Nana parte em busca dos poetas, e o bosque, onde a alquimia tem lugar, que Nana e Martim vão construindo a sua história de amor, uma história com sabor a pão, a mar e a palavras. 

"O Martim, o filho do padeiro, só escrevia versos com farinha branca; amassava-os e metia-os no forno. Era o mistério do pão acabado de fazer. E despediu-se de Nana com um presente. Tinha forma de pássaro."

(E não resistimos, a propósito, a recordar aqui Petrini e Sepúlveda, quando no seu livro Uma ideia de Felicidade, referem que "há mais sabedoria num pão bem feito, do que num discurso para «arejar os dentes»")   

Pormenores do miolo de Coração de Pássaro

O livro que completa a nossa seleção é de autoria nacional, de Marco Taylor, e gostamos dele pelo seu caráter experimental e inovador. Trata-se de um livro às fatias, que integra a categoria de livro-objeto, e que contém também uma história de amor. Nesta obra, porém, é o leitor que decide como acaba a história: falamos de A história que acaba bem. A história que acaba assim-assim. A história que acaba Mal.

Pormenores do miolo de História que acaba bem, História que acaba assim-assim e História que acaba mal

É um livro onde predomina a imagem sobre o texto (que é residual), e que convida a refletir sobre as escolhas que fazemos, sobre as variáveis que controlamos e as que não dependem de nós. 
A paleta cromática escolhida (não ao acaso, dada a simbologia que encerra) dá o tom às três histórias. Os diferentes desfechos são materializados com a incorporação de cores e tons condizentes com os estados emocionais que emergem de cada história.

Pormenores do miolo de História que acaba bem, História que acaba assim-assim e História que acaba mal

Por cá, e porque gostamos que as histórias ELF acabem bem, pedimos de empréstimo ao Marco algumas palavras, e, ainda que "quando apaixonados, às vezes sejamos tolos", outras vezes, "quando apaixonados temos mais coragem!". 
A nossa paixão pelos livros e o nosso amor à leitura continuarão a marcar presença neste espaço.
Obrigada a todos.


Nota: No que respeita a novidades editorais da LIJ em 2020, falamos de outras obras a propósito das representações do ambiente na literatura; das representações da infância; dos avós que povoam a atual literatura infantil; e de leituras luminosas para dias cinzentos


Boas leituras e desejos de um feliz Ano Novo!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Calendário de Leituras de Advento | Dia 24

Chegamos à última janelinha do nosso Calendário. E para preencher este dia trazemos uma das grandes pérolas da Literatura de Natal, em Portugal: Sonhos de Natal de António Mota, com ilustrações de Júlio Vanzeler. E, porque hoje é a noite de Natal, juntamos uma agradável surpresa à nossa sugestão.

Esta obra, assim como as que apresentamos nas janelas 7,9,10,17,20, 21 e 23, versa sobre um imaginário religioso, mais voltado para a figura do Menino Jesus.

Trata-se de um exemplo paradigmático da recriação do universo mágico em torno da elaboração do presépio em ambiente rural, bem como de toda a envolvência característica da época em tempos idos, dos aromas e sabores da gastronomia tradicional do Natal, passando pelos sonhos dos presentes que o menino Jesus trazia, culminando na reunião familiar que traz de longe o pai emigrado no Brasil, evocando Natais de outras épocas.

A história, contada na primeira pessoa (imagem acima), começa com a descrição de Pedra da Hera, a pequena aldeia que vai servir de cenário à narrativa, nos dias que antecedem o Natal. 

A sensorialidade que emerge do texto verbal é ampliada pelas belíssimas ilustrações de Júlio Vanzeler, resultando num interessante quadro de autenticidade. 

O círculo afetivo de Manuel, o narrador, compõe-se da avó Mariana e da mãe (com quem vive), do senhor Afonso, o vizinho que faz as melhores pataniscas, do Sr. Martins (o carteiro), dos amigos Ana, Joana, Pedro e Ricardo, e completa-se com o pai, que Manuel apenas conhece de um retrato que está pendurado na parede da sala (e das cartas).

E é precisamente com a chegada de uma carta do pai que têm início as férias de Natal de um ano que Manuel nunca mais esquecerá (imagem abaixo).  

Nos dias que antecedem o Natal, Manuel e os amigos vivem, intensamente, todos os preparativos para a festa. Da ida ao musgo, passando pelo ritual de fazer o presépio (um ritual quase mágico em que as figuras parecem ganhar vida), até à partilha da lista de presentes que os cinco amigos tinham pedido ao Menino Jesus (excerto na imagem abaixo), tudo é vivido de um modo quase sagrado, como que a preparar o grande momento... 

E o grande momento chega no dia 24 de dezembro:


"Já não têm conta as vezes que sonhei acordado. E muitos sonhos compartilhei com os meus amigos.

Mas nada foi tão especial como aquele dia que calhou a 24 de dezembro desse ano que agora relembro."

O dia começa com os afazeres habituais... (Na imagem abaixo podemos ler um excerto do relato das rotinas de Manuel, num registo revelador da sensibilidade que caracteriza a escrita do autor).


E é quando Manuel regressa que vai viver o momento mais marcante da sua vida.

"Quando cheguei ao largo da Pedra da Hera vi a Ana, o Pedro, a Joana e o Ricardo, o velho táxi do senhor Joaquim a largar fumo e um homem alto e magro, de fato e gravata. Esse desconhecido ajudava o senhor Joaquim a retirar do velho táxi uma grande mala castanha. Três malas estavam amontoadas no chão.
Ao ver-me, o senhor Joaquim disse de dedo apontado:
- Ó Zé, olha quem está ali!
O homem alto e magro olhou para a minha mãe e depois para mim. Abriu os braços e começou a caminhar devagarinho. Eu estava bem colado à minha mãe e vi que ele tinha os olhos bem brilhantes e sorria. 
Aqueles braços abertos vieram enlaçar-se na minha mãe. Estiveram muito tempo abraçados. E um manto de silêncio envolveu o largo."
(...)


"Depois o homem olhou para mim. E, de repente, pegou em mim, atirou-me ao ar, como se eu fosse um pássaro, e acabei por cair nos seus braços. Apertou-me contra o seu peito. E eu apercebi-me que os nossos corações batiam com muita força.
- Não dás um beijo ao teu pai? (...)"

E como é dia 24, depois deste terno momento, a narrativa completa-se com a descrição da consoada, das iguarias gastronómicas, dos jogos típicos do Natal e do alegre convívio familiar, (imagens acima e abaixo) culminando na descoberta dos presentes que o Menino Jesus deixara, na manhã no dia 25.

E porque hoje é a noite de Natal, e os nossos pequenos leitores estão ansiosos por saber que presentes recebeu o Manuel, temos uma surpresa para eles. Essa parte da história é revelada pela voz do próprio autor, António Mota, que, generosamente, aceitou o nosso convite para presentear as famílias ELF com esta maravilhosa leitura: 

E assim, com moldura de ouro, se completam as 24 Leituras de Advento do nosso Calendário.



E, para além da leitura, o que sugerimos?

1. Iguarias de Natal. Hoje desafiamos-te a acompanhar os preparativos para a ceia de Natal. Podes até ajudar a confecionar algum doce! Tira uma fotografia e envia-nos, contando-nos um pouco da história dessa receita. Como veio parar à família? Com quem é que a mãe ou o pai aprenderam a fazê-la?

2. Jogos de Natal. Que jogos de família são tradição em tua casa, nesta noite? Também conheces o "Par ou Pernão"? Partilha connosco: adoramos conhecer tradições familiares!

3. O Natal especial de 2020. Imagina-te, tal como o Manuel, quando já fores mais crescido, a contar como foi o Natal de 2020, um ano bem diferente. Escreve um pequeno texto onde relates algum pormenor em particular. Se quiseres, podes acompanhá-lo de uma fotografia.

4. Se ainda não fizeste o teu abecedário ou dicionário de Natal, aproveita esta noite. Podes envolver a família e, quem sabe, não nasce daqui mais uma tradição de Natal. Inspira-te AQUI e AQUI .

(Sabias que António Mota também tem um livro intitulado Dicionário das Palavras Sonhadoras? E sabias que o autor é um grande amigo ELF e que esteve presente nas comemorações dos 10 Anos aLER+ no Agrupamento de Escolas António Feijó: foi um grande momento, podemos recordá-lo AQUI e AQUI.)

Ficamos à espera das vossas partilhas! É já amanhã que vamos oferecer os nossos brindes de Natal...

UM FELIZ NATAL!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Calendário de Leituras do Advento | Dia 23

Com o Natal cada vez mais próximo, à nossa janela espreita hoje um livrinho da autoria de um dos grandes nomes da literatura portuguesa, que podemos considerar já um clássico: A Noite de Natal de Sophia de Mello Breyner Andresen, com ilustrações de Júlio Resende.  


Trata-se de um texto incontornável, marcado pela enorme sensibilidade que caracteriza a escrita da autora. Tópicos como a comunhão com a natureza e os seus ritmos, a infância, a casa, o olhar sobre os mais desfavorecidos e a amizade, encontram-se presentes na globalidade da sua obra. Curiosamente, o Natal, ora enquanto época que se integra no ciclo do ano, ora enquanto momento privilegiado de encontro(s) é explicitamente abordado em três dos seus livros: A Noite de Natal, O Cavaleiro da Dinamarca e Os Três Reis do Oriente.


Dividida em três capítulos, "O Amigo", "A Festa" e "A Estrela", esta história, através do estabelecimento de um forte contraste entre os mundos de Joana e de Manuel, as crianças que protagonizam a narrativa, dá especial ênfase às desigualdades sociais. 


A narrativa começa com "O Amigo", dando a conhecer ao leitor o mundo de abundância de Joana e o universo de pobreza de Manuel, diferenças que não parecem, contudo, atrapalhar a amizade. 


As descrições pormenorizadas que encontramos em "A Festa", tão reveladoras do olhar de Sophia, em muito contribuem para situar o leitor no clima da narrativa. Da decoração à azáfama que se vive na cozinha, o reino de Gertrudes, quase nos sentimos parte do momento.


O "clique" dá-se quando Joana questiona Gertrudes sobre que presentes irá receber o seu amigo Manuel, e a cozinheira, prontamente, lhe responde que Manuel não vai ter presentes nenhuns porque é pobre e os pobres não têm presentes, têm a pobreza.


Perante esta "revelação", a menina, aproveitando a ida da família à missa do galo, decide que, nessa noite, o seu amigo irá receber presentes. E é quando empreende este ato de coragem que, perante o negro da noite, se dá o milagre: uma estrela aparece para guiar Joana, viagem que dá corpo ao último capítulo "A Estrela".
Do caminho até à cabana, vai constar ainda o encontro com três personagens muito especiais que também seguem a estrela... 

"E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo. (...)
- Ah - disse Joana -, aqui é como no presépio!
- Sim - disse o rei Baltasar -, aqui é como no presépio.
Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes."


E, para além da leitura, o que sugerimos?

1. "A Estrela". Elemento emblemático da época e presença obrigatória na decoração de Natal, ainda não fez parte das nossas sugestões. Propomos, então, a elaboração de uma estrela em material de desperdício (cartão, madeira, tecido), que pode conter uma mensagem ou uma palavra inspirada neste belo texto de Sophia. Poderás colocá-la num lugar de destaque na noite de Natal.

2. "A Festa". Ao jeito da descrição dos preparativos da consoada, propomos-te a escrita de um pequeno texto em que relates um pouco da azáfama na tua cozinha, nestes dias. Se preferires podes fazer um desenho.

3. "O Amigo". A amizade é um dos temas principais deste livro. E nesta época também lembramos os amigos. Vamos fazer um Abecedário da amizade? A primeira letra já está: A de AMIGO!

Continuem a partilhar connosco as vossas experiências. O Natal está mesmo a chegar!

Podem conhecer alguns dos trabalhos inspirados no Calendário, AQUI.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

De aconchego e ternura se vai enchendo o nosso calendário | Obrigada!

As experiências que se vivem em casa das famílias, inspiradas nas sugestões do nosso calendário, são a prova da inesgotabilidade dos livros e da leitura, do manancial de afetos que deles jorram, e dos inúmeros benefícios colaterais que dessas experiências decorrem.

Quando o calendário de Leituras de Advento integra a decoração de Natal das nossas famílias: ADORAMOS! (já só falata o tronco).
Obrigada à família Malheiro Costa!

Dos vários testemunhos e experiências, que têm sido publicados nas nossas redes sociais e no separador Trabalhos, destacamos alguns dos que chegaram ao longo desta segunda metade do Advento.

Inspirada na sugestão da janela 13, os irmãos Mimoso tiveram uma curiosa experiência têxtil que resultou num original cobertor para as Renas do Pai Natal.
 

Para enfeitar a janela 15 do nosso calendário, chegaram estas ternurentas Meias de Natal que contêm um presente para o Pai Natal (gorro, cachecol e luvas) e um presente para o Menino Jesus (uma varinha mágica para acabar com o vírus, a fome e a guerra). Obrigada Duarte e Afonso!

Em casa da família Corvas, musicar poemas parece que já se tornou hábito. Inspirada no poema de Augusto Gil, que espreitou da nossa janela 21, a saudar o inverno, a Juliana decidiu embelezar com música este belo texto. 

Mas a Juliana não se ficou pela música. Desafiou o primo e, inspirando-se nas iguarias que espreitavam de alguns dos textos, voltou à cozinha para uma segunda ronda "Na cozinha com a Juliana". Desta vez com Sonhos de Natal.


Esta receita estava mesmo a pedir um Pasteleiro por perto para ajudar a nossa chef... 

Em resposta ao desafio da janela 18, o Duarte fez-nos chegar esta bela Profissão do Natal.
 

E foi também à janela 21 que apareceram "Os Reis", em resposta ao nosso desafio de recolher textos populares dos Cantares dos Reis. Quem sabe não criamos nós também uma antologia? Obrigada à Melissa, aos seus avós, ao Duarte e à sua Tia-Bisavó, e ainda aos Escuteiros!


À janela 20 estava o pastor Daniel, recordam-se? Inspirados nas sugestões que acompanhavam esta obra, a mãe Susana levou os seus duendes para o exterior e no regresso traziam um belo quadro. Já em casa da família Mimoso, outra mãe Susana enveredava por um curso de crochet porque os meninos queriam mesmo fazer a mantinha para o Menino Jesus. Quanta ternura!

O divertido livro de António Torrado, que espreitou da janela 19, deu origem a estes originais perus literários, que mostram como brincar com as palavras se revela altamente entusiasmante e produtivo! Obrigada ao Duarte, ao Afonso e à Melissa.


Podem conhecer outros trabalhos inspirados no nosso Calendário de Leituras de Advento AQUI e no separador TRABALHOS.

Vamos aproveitar estes últimos dias? O Natal está mesmo, mesmo a chegar (e nesse dia haverá surpresas!)